segunda-feira, abril 23, 2018

Quando eu fui apagada da minha própria vida

Hesitei muito em escrever sobre isso aqui, não acho legal me expor e muito menos reviver momentos tão ruins da minha vida. Porém nos últimos dias sentimentos e pensamentos ruins tem se apoderado da minha mente e pensei que talvez desabafar poderia ajudar. Estou falando mais especificamente sobre um relacionamento abusivo que eu vivi. 



Não sei para quem estou escrevendo e meu maior objetivo nesse momento não é nem ser lida mas apenas escrever, por tanto, antes de ler meu relato, levar em consideração o quanto é difícil pra mim mostrar um lado tão fraco meu, não julguem sem antes saber como uma relação abusiva se forma. Em momento algum eu gostei de sofrer ou de ser mal tratada, não existe amor ou sentimento algum que faça a pessoa gostar disso, existem sim circunstâncias que levam a isso e manipulação psicológica.

Na época que eu me envolvi com essa pessoa, eu estava há cerca de um mês apenas solteira, eu estava sempre saindo porque não conseguia me sentir bem sozinha, lembrando agora parecia que eu estava em uma fase boa apesar de tudo, porém a maneira como esse cara entrou na minha vida e conseguiu ser tão manipulador comigo fazem eu pensar que eu na verdade não estava tão bem comigo mesma quanto eu pensava.


Logo de início ele já mostrou que não curtia o som que eu fazia com a minha banda, poderia ser só uma divergência de gostos musicais mas não era, nossa convivência desde o começo era de quase cem por cento do tempo, então toda vez que eu tinha ensaio ou show era motivo para estresse e discussões, ele nunca fez questão de se abrir para conhecer as gurias com quem eu tocava, nem a participar desse convívio, ele simplesmente não gostava das pessoas, não gostava de nada e não queria fazer parte disso. Minha família e amigos também, ele não gostava de ninguém, as minas eram "vagaranhas", como ele chamava, e os cara (na cabeça dele) já tinham ficado comigo ou queriam ficar. Em contrapartida, ele estava sempre comigo, e pra mim que não me sentia bem sozinha isso parecia bom, e logo fui me acostumando a estar com ele e fui tentando contornar essas coisas e fazendo cada vez mais as coisas do interesse dele e saindo apenas com ele. Cerca de quatro meses depois que começamos a namorar, eu tinha um show em uma cidade próxima e nesse mesmo show tocaria uma banda da qual um ex namorado meu fazia parte, eu entendi o lado dele de não se sentir confortável com a situação e convidei ele para ir junto, ele não quis e também não queria que eu fosse. Tudo isso com muita chantagem emocional e psicológica, ele não me trancou em casa e me proibiu de ir, ele simplesmente me infernizou tanto até o ponto de eu desistir na última hora, sem nem avisar ninguém, deixando as gurias me esperando que nem umas idiotas. Antes disso, meu comportamento e meu rendimento na banda e na relação com elas já estava extremamente abalado por causa dele, depois disso então, com toda razão, fui expulsa da banda. Sofri muito, eu tinha feito algo completamente contra meus princípios, contra tudo que eu achava que eu era. E essa foi a gota d'água que faltava para ele perceber o domínio que tinha sobre mim e se tornar um monstro comigo. Naquele ponto eu já estava me sentindo sem identidade alguma e por mais estranho que pareça, na minha cabeça a única coisa de concreta na minha vida era ele, então passei a aguentar firme todos os abusos. Ele falava mal do meu estilo de me vestir, do meu cabelo, das minhas tatuagens, dos meus gostos, (prints) tive que excluir todas minhas redes sociais (por sorte, não sei como consegui salvar esse blog), perdi vários vídeos importantes para mim que estavam na minha conta do youtube, no meu facebook ele começou a implicar com TUDO e a ridicularizar minhas fotos e até postagens que a minha mãe (!) fazia na minha timeline (prints). (sobre os prints, poderia printar a conversa toda praticamente da conta que eu havia excluído por causa dele no facebook, peguei apenas alguns trechos, eu não aguentava mais reler eu sendo humilhada de uma maneira tão ridícula assim) Não estando feliz com isso, tive que excluir todas minhas músicas e fotos da banda do meu notebook, cujo qual ele já havia tomado conta e usava como se fosse dele, as bandas femininas que eu escutava durante toda a minha vida eram "tudo de puta", "7 Year Bitch", "Bitch Alert", "Hole", "Bikini Kill" tudo tinha uma conotação sexual e era de vadia, os filmes que eu gostava eram ridículos, "ain quer pagar de cult, odeio gente assim". E assim foi sendo destruído os resquícios do que era minha identidade e do que eu conhecia por mim, Daia "Scarlet". Daia. Daiana Medeiros. Eu havia sido apagada da minha própria vida.

Nessa altura, também comecei a sofrer agressões físicas vindas dele, tapas, arranhões e uma vez ele chegou a me derrubar e me machucar no meio da rua. Um monstro. E o fato de, depois de tanto tempo passado disso e de já ter terminado essa relação há meses, eu ainda sofrer, me remoer, me sentir mal é por pensar POR QUÊ? Por que aceitei? Por que me submeti isso? Por que cheguei tão baixo? Era tratada como um lixo, será que eu realmente sou esse lixo? Acredito que sim.

É um paradoxo de sentimentos pensar que a história ainda não acabou aqui, após um ano de namoro eu engravidei. Para mim ainda é muito triste pensar que meu filho também é filho dessa criatura, mas ao mesmo tempo, foi esse pequeno ser, que surgiu dessa relação tão doentia, que fez eu voltar à vida. Nessa época eu havia alugado uma casa com o dinheiro da bolsa que eu tinha na minha faculdade e morava com ele, além de estudar e arcar com as despesas sozinha, aguentava ele sempre desconfiando de cada passo que eu dava, para ele eu era mentirosa, não era uma pessoa confiável e eu era importunada com perguntas e desconfianças TODOS os dias dos três anos e pouco que vivi com esse cara. Pouco antes de eu descobrir que estava grávida, no meu aniversário de 22 anos, ele ficou de me buscar depois que eu saísse da faculdade à noite, porém me deixou mofando muito tempo até que decidi voltar caminhando sozinha. Cheguei chorando em casa e ele totalmente insensível acho que mal se desculpou e ainda ficou de cara porque eu não tava bem, sempre jogando video-game. Não existia data comemorativa para mim, ele nunca fez eu me sentir bem ou amada em nenhuma data "especial" bem pelo contrário. Na minha formatura da faculdade inclusive, fez questão de não ir, ficou bravo por causa do vestido que eu estava usando, parecia que a minha alegria, minhas conquistas incomodavam ele. Durante a minha gravidez, tivemos que mudar de casa, tive que procurar outra casa sozinha e quando finalmente achei uma, ele não gostou do lugar e me deixava lá sozinha a maior parte do tempo. Nas consultas pré-natal, ele foi a apenas uma comigo, e na sala de espera ainda apertou forte minha mão e me olhou feio, pois na cabeça dele eu estava olhando prum cara ou algo assim. Ainda grávida, em uma discussão ele me deu um tapão na cara, acho que foi a última vez que ele me agrediu fisicamente, mas sinceramente, o que doia mais eras as torturas e agressões psicológicas. 

No dia em que meu filho nasceu, já no quarto, após um parto normal, cansada, dolorida e com o bebê nos braços, esse cara pegou meu celular, ficou fuçando nas minhas mensagens e começou a me perguntar sobre uma de meses atrás de um colega meu da faculdade, sobre um trabalho, "tu não tinha me falado", "mas tu foi encontrar fulano?", "onde fizeram o trabalho?", "trabalho..sei.."... tentei segurar meu choro, mas as outras mulheres que estavam no mesmo quarto viram.

No ano que se seguiu, as coisas ficaram mais calmas, ele trabalhava eu ficava em casa o tempo todo cuidando do bebê, eu vivia muito focada na maternidade, falávamos apenas sobre os assuntos dele, escutávamos as musicas que ele gostava, e ele ficava maior parte do tempo na frente do computador jogando quando estava em casa. Parecia que as coisas estavam bem. Só que não. Após meu filho completar um ano, comecei a despertar e pensar em mim novamente, queria existir, fazer algo por mim, procurava emprego, mas quando me chamavam para entrevista ele sempre colocava algum defeito, certa vez fiz um teste por algum tempo em uma escola de idiomas, no principio eu daria aulas individuais de reforço, ele não gostou disso, "aula particular?.. sei.." mesmo assim eu continuava, mas a falta de apoio dele atrapalhava muito. Quis voltar a tocar, me inscrevi para fazer uma apresentação de voz e violão em um festival de artistas mulheres, tocaria umas músicas do Hole que eu ensaiava sempre quando ele não estava em casa, eu estava ansiosa e empolgada para isso. Porém próximo do dia, ele falou que se eu tocasse ele iria embora blablabla, eu e meu filho de um ano estávamos sendo "sustentados financeiramente" por ele, estava perto de vencer a conta de luz, se ele fosse embora como eu ia pagar? Além do mais, vou deixar meu filho sem pai? Mesmo assim tentei muito conversar com ele, mas ele insistiu muito, pegou meu celular dizendo, "Manda o recado pra guria dizendo que tu não vai poder, manda!" sem forças, chorando, fraca, inútil, desisti.
Mas disse para mim mesma que isso não ia mais acontecer.

Eu ainda não tinha tirado da cabeça a ideia de voltar a tocar, e um dia recebi o convite da baterista da banda que eu fazia parte antes para voltar. Fiquei extremamente feliz, aceitei na hora. Ele fez o drama dele, mas consegui ser forte e não voltei atrás na minha decisão. Depois que eu voltei a tocar, nos distanciamos, cada vez que eu tinha um show ele dizia que tinha direito de sair pra dar um rolê sozinho também. Eu era frequentemente infernizada com acusações de estar traindo ele, porém nunca fiquei com outra pessoa. Ele pegava muito no meu pé com isso, estávamos sempre com um clima super ruim, discussõezinhas que não chegavam a lugar nenhum, eu não sentia que ele gostava de mim e foi ai, depois de três anos, que comecei a perceber que esse era um relacionamento MUITO abusivo. Até então eu sempre me sentia errada mesmo, sempre achava que de alguma maneira ele tinha razão. Quando li essa matéria do site BuzzFeed, fiquei chocada, cheguei a tirar print de algumas coisas para "cair minha ficha" mesmo, quase todos os comportamentos listados ele tinha. Eu queria muito terminar mas não sabia como, tinha medo. Até que um dia, finalmente, me acordei e fui direto pegar o celular dele, coisa que eu NUNCA fazia. No messenger vi várias mensagens dele paquerando outras minas e uma conversa bem extensa com uma que ele tinha ficado em uma festa, havia vários detalhes. Perto de tudo que ele fez, uma traição seria algo de se esperar, eu desconfiava, mas a princípio confiava nele. Ele desconfiava TANTO de mim, toda vez que eu ia tocar chegava a me sentir mal, é uma pena eu ter excluído toda a conversa com ele da minha conta atual do Facebook, porque ele me falou várias coisas, dias seguintes de quando eu tinha show, ou até quando eu estava em casa e enquanto isso quem estava me traindo era ele. Isso, felizmente, foi o estopim que precisava para eu romper definitivamente com esse relacionamento. 

Me senti muito leve e realizada após fazer isso. Mas conforme o tempo passa esses fantasmas do passado não me deixam em paz. O impacto que essa experiência teve em mim foi grande, me vejo seguidamente deprimida, me sentindo feia e fracassada em tudo que eu faço na minha vida. Ele destruiu minha auto imagem. Sem falar que perdi laços de amizades e qualquer tipo de contatos nesses três anos que fiquei afastada de tudo, sendo assim, me sinto extremamente sozinha e desamparada. Por outro lado, às vezes eu mesma me sinto mais confortável me fechando no meu próprio mundo, mas isso me faz mal, não consigo manter qualquer tipo de relações mais profundas e próximas com as pessoas. Estou em um processo de reencontro comigo mesma, de resgate, amor próprio, mas está sendo árdua e sombria essa caminhada. Não consigo parar de me culpar pela situação que eu mesma me coloquei. 

Há alguns dias, essa pessoa ainda teve a cara de pau de me pedir para não espalhar essa história, que a agressão foi um ato isolado, que ele não é assim. Ele "saiu por cima" dessa história toda, totalmente impune, seguindo a sua vidinha de merda vestindo pele de cordeirinho para seus amigos e minas com quem ele se relaciona e ainda se acha no direito de me pedir para não falar sobre isso. Isso me faz pensar em quantos monstros como ele existem por ai, fingindo de bonzinhos e até 'pró feministos', esperando só o momento e a pessoa certa para se mostrar.

Gostaria de concluir esse relato com uma mensagem positiva e motivacional para mulheres (ou talvez até homens) que estejam vivendo situações semelhantes mas seria forçado da minha parte, nem eu superei esse abuso ainda. A única coisa que posso dizer é que se cuidem, estejam atentas aos primeiros sinais por menores que sejam de comportamento abusivo e caiam fora pois conforme o tempo passa vai se tornando mais e mais difícil sair disso e o desfecho muitas vezes pode ser muito pior do que o da minha situação. 

Um comentário:

  1. Obrigada por compartilhar isso com a gente, tenho certeza que vai ajudar muitas pessoas que estão em silêncio, que sofrem abuso e não sabem.

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