quinta-feira, junho 01, 2017

Punk Rock não é só pro seu namorado: Entrevista com Iéri (Bulimia)

Hoje quero compartilhar com vocês uma entrevista realizada pelo projeto We Are Not With The Band com Iéri, vocalista de uma das bandas mais significativas do riot grrrl brasileiro, Bulimia

Mas vamos por partes, primeiro eu gostaria de explicar o que é esse projeto, que quando vi o nome já achei genial. WE ARE NOT WITH THE BAND é um projeto multimídia que busca divulgar e empoderar as mulheres na música. O principal objetivo é desmistificar a ideia que as mulheres apenas são as namoradas,acompanhantes, fãs/groupies dos elementos de uma qualquer banda. Daí o WE ARE NOT WITH THE BAND (nós não estamos com a banda). As mulheres, cada vez mais, SÃO A BANDA. Além da entrevista que vocês vão conferir aqui, no site do projeto tem várias outras com musicistas brasileiras cheias de talento e atitude. 

Agora vamos a entrevista com Iéri (Bulimia) ♥ Selecionei algumas perguntas que Iéri fala mais sobre o Bulimia, feminismo e a questão da mulher na música. A entrevista completa pode ser lida aqui


Parte fundamental do cenário riot grrrl brasileiro, Iéri Luna cofundou o Bulimia, banda punk brasiliense composta apenas por mulheres e que explorava questões relacionadas a violência e machismo, na década de 90. O vocal rasgado e estridente, eternizado em músicas como “Punk rock não é só pro seu namorado” ou “Nosso corpo não nos pertence”, era o grito de uma garota buscando não apenas visibilidade, mas espaço em um cenário completamente dominado por homens.


O único álbum da banda, “Se julgar incapaz foi o maior erro que cometeu” (2001), marcou também o fim do projeto e é precedido apenas por algumas gravações caseiras. Dias antes do lançamento do disco, a morte da baterista Berila Conceição, afogada em uma cachoeira na Chapada dos Veadeiros, cortou o clima para o prosseguimento da banda, que já andava abalada por divergências internas.

                                            Iéri, 39 anos - Brasília, DF


Hoje, aos 39 anos, Iéri se define como feminista e anarquista. Graduada em Jornalismo, enveredou-se pelo caminho da saúde e da medicina chinesa. Atualmente, trabalha como acupunturista e começou a estudar fisioterapia. Iéri morou na Espanha por 12 anos, onde se envolveu com projetos políticos relacionados com o movimento okupa e com o anarquismo em geral. Tudo isso sem deixar a música de lado: durante boa parte do tempo em que esteve em Barcelona, foi integrante da banda punk, feminista e anarquista Las Otras e, durante alguns períodos, tocou baixo nas bandas Peste, Fossa Comum e Fome. Enquanto o Bulimia foi o pontapé inicial de Ieri na música e no feminismo, o Las Otras foi onde, finalmente, teve a oportunidade de se realizar política e sonoramente. Aproveitando o seu recente retorno para o Brasil, conversamos com ela sobre todas essas coisas:


M.: Como o Bulimia começou?
I.: Eu já conhecia o movimento riot grrrl porque tinha vindo de um intercâmbio nos Estados Unidos. Na época, eu já escutava punk rock e hardcore, e a banda que me introduziu mesmo no feminismo foi o Bikini Kill. E o maior impacto que Bikini Kill teve na minha vida foi me fazer pensar “cara, quero ter uma banda pra poder falar dessas coisas”. 
Cheguei aqui determinada, com a vontade de montar uma banda de meninas, e eu não sabia tocar nada. Eu tinha, sei lá, 16 anos. Então conheci a Bianca [Martim] e ela já tocava guitarra há alguns anos e sempre foi empolgada para montar uma banda. O feminismo era uma questão que a gente discutia na banda e, por isso, Bulimia era “banda feminina” e não “banda feminista” em todos os panfletos que a Bianca fazia. Ela fez todo o trabalho de divulgação, mandou nossa fita demo para todo o Brasil e foi isso que com certeza ajudou naquela época. A internet era meio incipiente, não era uma coisa comum ir lá e baixar um disco, você tinha que pedir a fita pelo correio, recebia a demo, era todo um esquema assim.
A grande dificuldade foi encontrar uma menina que tocasse bateria. Aí a Bianca conheceu a Berila e ela falou desse projeto e, por sorte, ela entrou. Ela era de longe a que mais tocava, foi uma pessoa fundamental. Mas a questão ideológica era sempre um pouco complicada. A Silvia [primeira baixista] tocou dois shows, mas ela não se sentia muito confortável em tocar e tal, então a gente chamou a Naiana e a banda rolou.


M.: Qual foi a repercussão que a banda teve na época?
I.: O Bulimia foi muito traumático, vocês não têm ideia. É até curioso ver hoje todo esse alcance que teve, porque o que eu vivi na época não era isso. Acho super interessante como as gerações seguintes foram conhecendo o Bulimia como, sei lá, uma referência de punk feminino, né. Sofri muito, porque eu era a feminista da banda e levei toda uma luta política em relação a isso, mais respaldada pelo Nada Frágil mesmo, coletivo feminista que atuava na cena.
O Bulimia foi uma banda que começou com aquele vocal estridente, que não foi bem aceito. Ou você odiava ou você amava, e quando você amava era justamente pelo que trazia nessa diferença, do que significou aquilo, todas as letras. Tem a história da galera jogando a fita demo no chão e pisando, e eu conto porque é tipo, uou, como as pessoas realmente se dão ao trabalho, né? Foi uma banda que chocou porque, realmente, a gente estava falando de coisas que ninguém estava falando aqui em Brasília. Dominatrix já existia em São Paulo, mas a gente só foi conhecer depois.
Quando fiz e distribuí um panfleto que chamava ao boicote de umas bandas [machistas], a gente ainda não tinha tocado com o Bulimia. Mas a gente já estava ensaiando. Pra mim, uma banda era uma forma de expressar as coisas que eu queria falar, eu precisava chacoalhar aquela cena. Eu era muito chata, e fui muito insistente nesse tema. Eu tinha umas referências muito importantes, Crass, Cólera… Pra mim o hardcore era política, e eu não entendia como que de repente era só música.

Depois disso, porque também existia a movimentação do Nada Frágil, a gente conseguiu criar uma cena paralela. Tipo, a cena dos caras machistas continuava existindo. Mas a gente tinha uma cena que era nossa aliada. Com caras também, poucos, mas estavam ali. Nesse período, a gente produziu poucos shows, a maioria dos que a gente tocava era nos que a gente pedia para tocar ou que as pessoas chamavam e tudo partia de uma afinidade mais política. Lembro que a gente tocava muito em Goiânia, tinha uma galerinha lá super apoiadora do Bulimia pelo que a gente falava, pelas letras. A gente começou a fazer parte de uma rede de bandas que também eram mais políticas e que não era aquele “roqueiro” de Brasília, sabe? Essa diferença é importante. Quando falo roqueiro, é aquela coisa da galera que está tocando rock e, porque faz rock, já acha que é o bam-bam-bam.

M.: Você sente que há uma expectativa de que mulheres cantem “bonito”, e por isso uma resistência a vocais femininos que sejam mais experimentais ou amadores? 
I.: Tem um spoken word da Kathleen Hanna, do Bikini Kill, que ela fala disso, que as pessoas sempre esperam que as mulheres cantem como anjos ou gritem como os caras. Ou você faz o vocalzão gutural como o deles [imita um gutural], ou você canta afinadinho. Gritar como uma menina não tem cabimento. Isso, pra mim, é uma grande marca do riot grrrl. A voz feminina irrita.
Eu não fui escolhida para cantar no Bulimia porque eu cantava bem, e essa era a grande mensagem. Eu não fui escolhida, a gente já montou a banda porque eu queria cantar. Lembro quando a gente tocou em São Paulo, em um show muito legal com o Libertinagem, uma das bandas que eu amei daquela época, a gente tocou com o Dominatrix também nesse show… E aí umas meninas chegaram para a gente falando que, caramba, queriam muito aprender a tocar para tocar como a gente… E eu tipo “gente, mas não sabemos tocar”. É só tocar, entendeu? Essa é a mensagem desde o riot grrrl, e desde o punk. Não é sobre saber tocar, é sobre tocar com o coração, com a paixão de transmitir o que você tem a dizer, o que você tem para expressar. O punk é não-música, vamos lembrar. Gente, o punk não é música! Quantas vezes a gente tem que repetir isso, cara? Deixa a música para os músicos.
Mas, sendo sincera, Bulimia é a banda que eu menos gosto musicalmente, de todas que eu tive.


M.: Você já declarou que, no Bulimia, você estava mais interessada nas letras do que na música. Sua relação com a música mudou desde então?
I.: Na minha época adolescente, a questão da letra era mais importante. Eu acreditava que ter uma banda era fazer uma revolução. E isso mudou com o tempo. A minha visão hoje é de que uma banda, por mais política que seja, é uma banda. A revolução está nas ruas. Então a música é importante também. Hoje, para mim só faz sentido [estar numa banda] se eu gostar da música.

M.: Atualmente se discute muito a questão da visibilidade do feminismo na mídia e na internet. Você imaginava que o movimento teria o alcance que tem hoje?
I.: É surpreendente ver o feminismo hoje, nunca pensei que fosse ver ele na moda. Todo mundo feminista na televisão. Eu acho que é bom que as pessoas estejam falando disso, mas o nosso papel é continuar radicalizando. Nunca devemos pensar “ah, já está na moda, então conquistamos”. Não. Agora que as pessoas entendem que as mulheres também são seres humanos, e que elas também podem ser o que quiserem, aí a gente vai radicalizar, pra talvez transgredir a própria noção de ser mulher. Isso num plano mais intelectual, né, a gente nunca pode esquecer a vida diária, com mulheres sendo mortas e estupradas. Então, assim, está na moda, mas não tanto, né? Qual é o impacto na sociedade realmente? A gente quer mais, a gente sempre quis.

M.: Você acha que as mulheres possuem dificuldades específicas no meio da música? 
I.: Acho que, até hoje, existe a questão de a gente sempre ter que ficar provando que a gente também é capaz de fazer. Se um cara simplesmente assume que sabe o que está fazendo, a gente tem que provar que saber o que está fazendo, especialmente se estamos em algum lugar que não deveríamos estar, que não é culturalmente atribuído às mulheres, como em cima do palco tocando punk, hardcore ou qualquer outra coisa. E querendo ou não, a gente continua tendo que ser atraente. A nossa aparência continua tendo um peso muito mais importante do que para os caras, sempre. É surreal que em 2017 a gente ainda tem que falar disso. O Bulimia tinha esse nome para questionar isso, e é isso até hoje. A nossa aparência sempre é objeto de comentário, para o bem ou para o mal. A gente não pode simplesmente ser, e foda-se.

M.: Que conselho você daria para uma menina que está começando na música agora?
I.: Vai lá e faz. Vá e faça, cara. Não tenha medo de ser você mesma. A maior felicidade é conseguir fazer o que a gente quer, não se submeter mesmo. Você vai achar apoio, somos muitas, você não está sozinha. O que eu acho que está errado é achar que precisa aprender para fazer. Não espere aprender para fazer. É um pensamento muito burocrático. “Eu quero aprender guitarra, então vou ter que esperar aprender guitarra”. Não. Arruma uma guitarra, pega emprestado, olha uns canais no Youtube. Toca, depois você aprende. Essa é uma lógica totalmente contrária. Essa é a liberdade do punk e do hardcore. Vão rir de você, mas tem gente que vai gostar. A gente não pode deixar de fazer as coisas por medo de que riam da gente, porque sempre vão rir da gente.

Entrevista: Amanda Venicio e Maíra Valério

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