terça-feira, abril 03, 2012

Pagu




Pagu/Patricia Rehder Galvão
Poema publicado n’A Tribuna, Santos/SP, em 23/09/1962


Nada nada nada
Nada mais do que nada
Porque vocês querem que exista apenas o nada
Pois existe o só nada
Um pára-brisa partido uma perna quebrada
O nada
Fisionomias massacradas
Tipóias em meus amigos
Portas arrombadas
Abertas para o nada
Um choro de criança
Uma lágrima de mulher à-toa
Que quer dizer nada
Um quarto meio escuro
Com um abajur quebrado
Meninas que dançavam
Que conversavam
Nada
Um copo de conhaque
Um teatro
Um precipício
Talvez o precipício queira dizer nada
Uma carteirinha de travel’s check
Uma partida for two nada
Trouxeram-me camélias brancas e vermelhas
Uma linda criança sorriu-me quando eu a abraçava
Um cão rosnava na minha estrada
Um papagaio falava coisas tão engraçadas
Pastorinhas entraram em meu caminho
Num samba morenamente cadenciado
Abri o meu abraço aos amigos de sempre
Poetas compareceram
Alguns escritores
Gente de teatro
Birutas no aeroporto
E nada.




A musa trágica da revolução


Zazá, como era conhecida em família, já era uma mulher avançada para os padrões da época, pois cometia algumas “extravagâncias” como fumar na rua, usar blusas transparentes, manter os cabelos bem cortados e eriçados e dizer palavrões. Ela não queria saber o que pensavam dela, tinha muitos namorados e causava polêmica na sociedade. Esse comportamento não era nada compatível com sua origem familiar, porque provinha de uma tradicional família e muito conservadora.


O apelido Pagu foi dado por Raul Bopp,  teria mostrado a Raul alguns poemas e, na mesma ocasião, o poeta sugeriu que ela adotasse um “nome de guerra” literário. Sugeriu Pagu, brincando com as sílabas do nome da escritora, que Bopp equivocadamente acreditava se chamar Patrícia Goulart. Nascida em São Jão da Boa Vista em 9 de junho de 1910, sua história foi motivo de filme e farto material para livros. Pagu foi jornalista, escritora, incentivadora do teatro e das artes em geral, revolucionária e em meio a tudo isso foi ainda esposa, amante e mãe. Foi a musa do movimento de antropofagia. Uma revolucionária que teve na sua atividade politica seu maior algoz. Uma mulher inquieta e atenta a seu tempo,  que optou pelo uso da palavra escrita para transmitir suas idéias e pelo jornal, como meio de fazê-las chegar a um maior número possível de pessoas.


Pagu faleceu no dia 12 de dezembro de 1962, vítima de cancêr.

Fontes :

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